Quanto custa o kWh em Goiás depois do reajuste de 18,55%
Desde 22 de outubro de 2025 a tarifa residencial da Equatorial é de R$ 0,89 sem tributos. Com o ICMS passa de R$ 1,10 e, com PIS/COFINS e bandeira, chega perto de R$ 1,20. O que entrou nessa conta, com o que a distribuidora ficou e o que uma usina pode fazer com isso.
Em 21 de outubro de 2025 a ANEEL homologou o reajuste anual da Equatorial Goiás: 18,55% em média, valendo a partir do dia seguinte para 3,49 milhões de unidades consumidoras. Para a casa comum, que é a classe B1 residencial, o índice foi de 18,74%. Na baixa tensão como um todo (casas, lojas e pequenas indústrias) a média ficou em 19,01%.
Onze meses depois, vale olhar o que sobrou disso na fatura. Não a porcentagem, mas o preço de um quilowatt-hora.
O que a distribuidora diz, e o que isso muda
A Equatorial explicou em nota que a parcela dela no reajuste foi de 1,63%, “bem abaixo da inflação do período”, e que o restante cobre a cadeia inteira: geração, transmissão, encargos e subsídios. A ANEEL confirma a composição. Os encargos setoriais foram o item que mais pesou, e sem um diferimento de cerca de R$ 270 milhões o índice teria sido de 21,45%.
Tudo isso é verdade, e nada disso muda o que se paga. A fatura não separa a parte com que a distribuidora ficou da parte que ela apenas repassa. Tem um valor só, e ele subiu quase um quinto de uma vez.
O efeito apareceu onde deveria aparecer. No IPCA-15 de agosto de 2026, a energia elétrica residencial em Goiânia acumulava alta de 20,72% em doze meses, quase três vezes a média nacional do mesmo item, que foi de 7,39%. O Instituto Mauro Borges, do governo do estado, calculou na época do reajuste que o goiano compromete 3,9% da renda com energia. Entre os mais pobres, 5,5%.
Quanto custa o kWh hoje
A tarifa homologada para a residência comum (B1 convencional) é de R$ 0,89181 por kWh, sem tributos. Antes do reajuste era de cerca de R$ 0,75. Pela base de tarifas da ANEEL, perto de 64% desse valor é fio, a chamada TUSD, que remunera a rede da distribuidora. Os outros 36% são a energia em si, a TE.
Ninguém paga a tarifa homologada, porém. Os tributos entram “por dentro”: a tarifa é dividida por um menos as alíquotas, e não multiplicada por elas.
Sem tributos: R$ 0,892 por kWh. Com ICMS de 19% (Goiás, desde abril de 2024): R$ 0,892 ÷ 0,81 = R$ 1,10. Com PIS/COFINS por cima, supondo 5%: R$ 0,892 ÷ 0,76 = R$ 1,17. Com a bandeira amarela, R$ 1,885 a cada 100 kWh, também tributada: R$ 1,20.
PIS e COFINS têm alíquota efetiva que muda todo mês e vai impressa no verso da fatura. A própria Equatorial informou que ela subiu 1,83% entre junho e julho. A bandeira amarela está acionada desde maio, e setembro é o quinto mês seguido. Por cima de tudo isso entra ainda a CIP de Goiânia, um valor fixo por faixa de consumo, que desde janeiro segue regra nova e, por decreto de 2026, passou a custear também câmeras de monitoramento.
Na prática, a casa que consome os 236 kWh que a Equatorial mediu como média em novembro paga perto de R$ 283 só de energia, antes da CIP. Um ano antes, a mesma casa consumia 210 kWh. O calor fez o resto.
O consumidor não escolhe encargo, não escolhe bandeira e não escolhe câmera. O que ele escolhe, no máximo, é de onde vem o kWh.
O que a usina faz com esse número
Aqui é preciso ser exato, porque é o ponto em que mais se vende conversa.
Conectada à rede (geração distribuída). Cada kWh que a usina gera e a casa consome na mesma hora deixa de ser comprado a R$ 1,20. Esse é o ganho limpo. O que sobra vai para a rede e volta como crédito, e o crédito, em 2026, paga 60% do Fio B, que é a parcela da TUSD que remunera a distribuidora. Escrevemos sobre a transição da Lei 14.300. Continua existindo o custo de disponibilidade, de 30, 50 ou 100 kWh por mês conforme a ligação, e a bandeira incide sobre o que ainda for faturado. A conta não zera. Quem promete zerar está vendendo a regra de 2022.
Com bateria, ainda conectada (híbrido). A bateria guarda o que a usina gera ao meio-dia para a casa usar às oito da noite, que é justamente o consumo que hoje vem inteiro da rede. Há um segundo argumento, e ele está na tabela da própria Equatorial: na Tarifa Branca, o kWh do horário de ponta custa R$ 1,69798 sem tributos, contra R$ 0,72791 fora de ponta. Uma bateria é, entre outras coisas, uma forma de nunca comprar o kWh caro. É também o que mantém a casa de pé quando a rede cai e a usina convencional desliga junto. O que ela não é: barata, nem simples. Entra no projeto desde o começo, e o tamanho sai do que você quer manter ligado, não de uma promessa de autonomia.
Fora da rede (off-grid). Sem fatura, sem bandeira, sem CIP, sem reajuste em outubro. E sem rede. A bateria precisa atravessar a pior semana de chuva do ano, o excedente de setembro não vira crédito e um gerador costuma aparecer no projeto como plano B. Na zona rural, onde a rede não chega ou cai toda semana, é a conta certa. Na cidade, é mais uma declaração do que uma conta. Que a pergunta exista já diz alguma coisa sobre a tarifa.
O que fazer, na prática
1. Calcule o seu kWh real. Valor total da fatura dividido pelos kWh consumidos. Esse é o número que qualquer proposta de usina precisa bater, e não a tarifa homologada.
2. Leia o verso da fatura. Lá estão a alíquota de PIS/COFINS do mês, o ICMS, a bandeira e a CIP. É a única fonte que vale para a sua casa.
3. Exija a simulação com o Fio B e com o custo de disponibilidade. Proposta que compensa um por um e zera a conta está errada para cima, e o erro fica com você depois.
4. Marque 22 de outubro. É a data-base da Equatorial, e o próximo reajuste anual vale a partir dela. Uma proposta feita em setembro com a tarifa de hoje já nasce desatualizada.
Nenhum desses números é opinião nossa. São a resolução da ANEEL, a tabela da Equatorial e o IBGE. A opinião é uma só: o preço do kWh virou uma variável que a casa não controla, e a usina é a única parte da conta que ela controla.
Fontes
Continue lendo